Foi um dia bem bonito. Meio corrido e meio caminhado. Com ânsias na chegada e sem pressas na saída. Guardo agora na memória e se calhar para sempre no coração, o beijo que dei ao meu pai quando me deixou no altar, que disse tudo mesmo sem ter dito nada. O brilho dos olhos da minha mãe que sorriu e acalentou cada um dos muitos minutos de atraso até à capela...! Como a minha mamã estava linda...! Escolhi a capela da aldeia do meu pai. Um templo austero, sofrido, pobre. Sem adornos ou talhas. Só umas paredes caiadas no cimo de um monte que me viu crescer. Talvez nem os convidados saibam mas escolhi esta capela porque há exatamente 15 anos também ali o meu irmão recebeu a benção de Deus num caminho se calhar bem mais difícil que o casamento. Quinze anos depois, no dia do meu aniversário, foi o meu irmão que me casou... E é a ele que mais gratidão dedico nesse dia. Não por ter vindo de propósito de Moçambique para me casar mas por toda a dedicação, pelo empenho e paciência. Por nunca ter deixado de sorrir e fazer piadas mesmo quando esperou por mim uma hora e meia! Creio que só chorei uma vez. E quase chorei outra vez. Chorei quando vi a Sara no altar a ler uma leitura do novo Testamento. E lembro-me de pensar que me emocionava mais por ela, e por tudo o que ela representa na minha vida, do que por mim e pelo casamento. Quase chorei no momento dos votos que obriguei (sim, obriguei!) o noivo a decorar. Sempre me pareceu pobrezinho, miudinho, os noivos não decorarem uma frase (duas, vá) que marca o juramento mais importante das suas vidas.. E ele portou-se bem! Disse tudo direitinho sem engasgos ou enganos, sem virgulas a mais nem carinho a menos. E depois, quando chegou a minha vez, coloquei a voz para os anjos não terem dúvidas, olhei-o nos olhos e disparei. Três palavras à frente os meus olhos começaram a falar por eles... Já lacrimejava. E quando estava ali a meio entre o 'amar-te e respeitar-te' e o 'na saúde e na doença' ele percebeu que eu estava a uma sílaba do embargo e deitou-me um sorriso tão grande que recuperei todo o folego e as lágrimas secaram em felicidade. Estava casada.
Acabei por ficar com o meu nome de solteira. Amo o meu apelido não porque o ache bonito e nobre(!) mas porque carrega em quatro letras a dignidade e grandeza da minha família. Tenho um orgulho imenso nos Fernandes dos Reis. Não podia deixá-los em segundo plano. Antes mantê-los lado a lado com os Nithingale Floriano.
E é isso. Nada mais digno de nota. Apenas que ao fim do dia o véu ficou todo rasgado, sabe Deus como.. E o fogo de artifício foi um exagero...! Parecia mesmo um casamento de província. E era.